|
PLANTA
T-23
Uirapuru
Ele tem jeito de
aeromodelo, mas nasceu para ser o treinador básico da Força
Aérea. Se você procura um modelo para construir uma réplica
em Escala capaz de deixar todo mundo na sua pista com água
na boca, este é o avião certo. Hobbylink
tem a planta com todas as soluções de construção!
Álvaro Caropreso
A paixão pelo T-23 Uirapuru aconteceu de estalo, quando o vi pela primeira
vez estacionado na pista do Centro Técnico da Aeronáutica (CTA), em São
José dos Campos, SP. Isso deve ter acontecido por volta de 1967 ou 68,
quando as primeiras unidades desse avião projetado pelo engenheiro José Carlos
Reis foram construídas pela fábrica Aerotec para atender a uma encomenda
da Força Aérea Brasileira. O Uirapuru se destinava a substituir os antigos
Fairchild PT-19 e os Fokker S-11 como avião de treinamento primário na
Academia da Força Aérea (AFA). Naquela época, eu estava em uma grande
encruzilhada: Não era capaz de me decidir entre buscar uma vaga de piloto
da FAB ou os lauréis de pesquisador ou professor de Física. Por razões
que desconheço, apostei na segunda opção a despeito de o envolvimento
com o aeromodelismo empurrar na outra direção desde a infância. Por razões
ainda mais inexplicáveis, a Física acabaria me fazendo aportar no Jornalismo.
Somando, foram 16 anos sem construir um aeromodelo. Isso não faz bem à saúde.
Diz
a lenda que o uirapuru enfeitiça os outros pássaros
da floresta com o raro canto que anuncia a construção
do seu ninho. Todos ficam em silêncio para ouvir
a melodia do solene ato de voltar-se para si mesmo.
O avião fez isso comigo numa manhã de sábado quando
vi um modelo pintado com o padrão da AFA na vitrine
da Casa Aerobrás, em São Paulo. Era um kit para Vôo
Circular Comandado (VCC ou U-Control). Comprei-o
na hora. Joguei fora as tralhas acumuladas durante
os anos em um quartinho nos fundos de casa e reativei
minha oficina. Aquele seria o primeiro aeromodelo
construído por mim como adulto - pai e dono de responsabilidades
inversamente proporcionais ao patrimônio material
acumulado em um período da história do Brasil em
que não havia fronteira entre a militância política
e o jornalismo profissional.
Construir aquele Uirapuru foi divertido, mas deu muito trabalho. Os dedos
precisaram se recalibrar para tarefas desse tipo, inclusive para a pilotagem.
Por isso, o avião voltou quebrado após o vôo de estréia em um ermo pátio
de estacionamento no campus da Unicamp, em Campinas, SP. Com um modesto
motor Sassi 15 no nariz, o T-23 voou pendurado na falta de potência.
Contra o vento, em pré-estol; a favor do vento, em estol puro. Para não
cair, era preciso correr para esticar os cabos como se o avião fosse
uma pipa. Um sufoco! Talvez um motor mais valente resolvesse o problema,
mas o Sassi 15 era a única alternativa que cabia no meu orçamento. A
solução foi montar outro modelo, mais leve, para reaprender a pilotar.
Mais tarde, quando os modelos radiocontrolados começaram causar comichões,
um Uirapuru RC entrou nos meus planos. A primeira experiência foi um
fracasso. Tentei adaptar o modelo da Aerobrás, mas inutilizei o avião
de tanto mexer. Depois, construí um modelo novo a partir de modificações
na planta. Outro fracasso. Abandonei temporariamente a idéia, pois a
fissura para voltar às pistas era mais forte do que a paciência para
projetar e testar.
Muita água rolou até o dia em que, já como editor de Hobbylink/MeN, soube
que a loja Aero Shop, de Porto Alegre, vendia uma planta do Uirapuru
para motor .40/.46, projeto do construtor Biassino Ramos. Encomendei
uma delas e, ao abrir o envelope, tive uma convulsão dicotômica. Meu
lado aeromodelista queria iniciar a construção imediatamente, enquanto
meu lado editor gritava para publicar a planta. “É muito bacana! É muito
bacana!” E decidi publicar a planta, com a permissão do autor e da Aero
Shop e, mais uma vez, com a notável habilidade do desenhista Ivan Plavetz.
No desenho de Plavetz
foram acrescentados mais detalhes e soluções de execução para
facilitar a vida de quem tem pouca experiência no trabalho em
oficina ou na construção de modelos a partir de plantas. O resultado
que se nesta planta de Hobbylink é, provavelmente, um dos melhores
desenhos técnicos já publicados em uma revista especializada
em aeromodelismo.
A planta de Biassino refere-se à versão militar do Uirapuru, com denominação
de fábrica A-122A. Esta se distinguia da versão civil (A-122B) pelo canopy
do tipo “bolha”, mais bojudo e todo envidraçado para permitir visão ampla
por parte do aluno e do instrutor sentados lado a lado (veja a ilustração
com três vistas destas versões). De acordo como o historiador Roberto
Pereira poucos exemplares do civil A-122B foram construídos, a maioria
destinada a aeroclubes de diversas cidades do País. Até recentemente
pelo menos um A-122B permanecia em operação no Aeroclube de São José dos
Campos. Ao todo, foram fabricados 330 exemplares até 1976.
É importante notar que o avião original, full scale, possuía uma espécie
de barbatana debaixo da fuselagem, estendida do bordo de fuga da asa até a ponta
da cauda. Essa superfície foi acrescentada pelo projetista para eliminar a tendência
de o avião entrar em parafuso ao executar curvas fechadas descendentes (a cauda
curta pode contribuir para isso). Uma réplica em escala reduzida talvez acentue
essa tendência. Por isso, é recomendável que a barbatana seja incorporada ao
modelo. Haverá uma certa dificuldade para se fazer o canopy transparente. A moldagem
a vácuo de uma lâmina de poliuretano é a técnica mais recomendada. Se você não
domina este processo, há no País muitos construtores em cujas oficinas isso pode
ser feito sob encomenda, desde que se prepare um molde sólido. Para isso, o melhor
caminho consiste em esculpir um bloco de Isopor® para dele se fazer
outro, de gesso. O desenho em corte nesta página ajuda a perceber melhor as sutilezas
da peça. |